sexta-feira, 8 de abril de 2011

Coral-Sol

Coral Sol
Ilha Grande
Distante cerca de 50 km do litoral de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, a Ilha Grande tem uma área de 193 km2, com 106 praias. As águas cristalinas são ideais para mergulho, favorecedendo o turismo de observação subaquática.

A Ilha Grande é mesmo um lugar tentador. Já atraiu colonizadores, piratas, fazendeiros e, mais recentemente, turistas. E agora há invasores até debaixo d'água!

De carona na água de lastro dos navios cargueiros, vindos do Oceano Pacífico, seres minúsculos encontraram boas condições de sobrevivência na costa brasileira. Chegaram, espalharam-se e se instalaram. Os corais do gênero Tubastraea, conhecidos também como Corais-sol ou Corais-invasores, justificam os nomes populares. De cor amarela ou laranja, brilham e chamam a atenção, além de ocupar cada vez mais espaço nos lugares que conseguem colonizar. Um desses locais é o fundo do mar de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Não é de hoje que invasores se sentem à vontade por ali. Antes eram apenas os índios tupinambás. Dominavam a ilha de Ipauguassu, que em tupi significa Ilha Grande. Mas logo os 193 quilômetros quadrados de Mata Atlântica, com 106 praias paradisíacas, foram descobertos pelos portugueses. E teve início o histórico de invasões e alterações da natureza. Os índios e muitas espécies vegetais e animais perderam as terras, o lar, as vidas.

Vieram então os piratas ingleses e espanhóis, que encontraram águas calmas e bons esconderijos, locais perfeitos para tocaia e ataque. Saqueavam as embarcações de transporte de riquezas para a Europa. E foram sucedidos por milhares de escravos. Oito mil chegaram a trabalhar simultaneamente nas lavouras da ilha. A vegetação nativa perdeu espaço para as grandes plantações de cana-de-açúcar e café.
No século passado, enquanto a mata se regenerava e não mais existiam escravos, novos habitantes chegaram. Presidiários mandados para duas cadeias: o lazareto e a colônia penal Cândido Mendes, desativada há apenas dez anos. Aos poucos, apesar dos presídios, consolidou-se mais uma invasão: a dos turistas de todo o País e do exterior, atraídos, sobretudo, pelas belezas subaquáticas. E a Ilha Grande logo se tornou um dos principais pontos de mergulho do Brasil. A vida submarina é diversa e não faltam animais para observar. Mas, nos últimos anos, os corais invasores chamam mais atenção do que muitas espécies nativas.
O primeiro registro do coral-sol na região foi em 1998 e de lá pra cá ele se espalhou rapidamente. O instrutor de mergulho Fernando Gouvêa trabalha na ilha há dez anos e se lembra de quando os primeiros foram vistos. "Surgiram aos poucos e rapidamente fomos encontrando pequenas colônias em vários pontos de mergulho", conta. "São como pequenas flores e muito bonitos".
Sem controle, as colônias ganham força e se espalham cada vez mais. Ainda não se sabe exatamente de que forma podem afetar os ecossistemas locais, mas especialistas temem esse crescimento desenfreado. O biólogo e mergulhador João Paulo Krajewski vê a chegada dos corais com preocupação. "É certo que os corais Tubastraea são, para os apaixonados por mergulho, um atrativo a mais. Só que eles ocupam o espaço de espécies nativas e é preciso estar atento a isso, embora, se não for impossível, já é muito difícil conseguir eliminar a presença total do gênero por aqui".
Os corais encontraram na baía de Ilha Grande ambiente propício para se estabelecer e procriar, o que fazem rapidamente, de forma assexuada. As cavernas e encostas de águas rasas são os locais preferidos e as refeições estão garantidas em um ambiente rico em plâncton, seu principal alimento. Aliás, a disputa por comida é um dos fatores que atrapalham os ecossistemas locais. Segundo Joel Creed, biólogo e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, "os corais-sol reduzem a quantidade de plâncton na água, e, portanto, disputam o alimento disponível com os organismos nativos. Além disso, tem a questão do espaço. Esses corais não pedem licença, simplesmente dominam o hábitat de outros animais", afirma o pesquisador, que estuda os Tubastraea há cinco anos.
Resolver o problema não é tarefa simples. Na opinião de Creed é preciso envolver órgãos ligados aos governos estadual e federal. "É possível controlar a invasão, erradicar os corais em alguns locais e detectar novas introduções", opina. E lembra que a implantação de programas para controle ou erradicação de espécies invasoras é um compromisso assumido pelos países participantes da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), assinada pelo governo brasileiro em 1992 durante a Rio-92, no Rio de Janeiro. Além disso, desde 2004, existe um tratado internacional sobre o uso de água de lastro, regulando o transporte de espécies aquáticas em escala mundial, mas o documento ainda não entrou em vigor. O tratado estabelece que a troca de água de lastro dos navios deve ser realizada preferencialmente em alto mar, a 200 milhas da costa ou a 200 metros de profundidade, no mínimo. Seguir essas normas seria como implantar um sistema de 'alfândega', um controle em todas as zonas costeiras para entrada dessas espécies invasoras.
Alheios aos acordos diplomáticos, os corais de Ilha Grande tendem a se tornar um problema muito maior, causando sérios desequilíbrios em santuários ecológicos. O litoral brasileiro é extenso, e é grande a movimentação de navios cargueiros pelos portos do País, o que facilita o deslocamento dos seres marinhos. "Existem recifes de coral importantíssimos no sul da Bahia, como Abrolhos, e no Nordeste de maneira geral, ambientes ainda mais propícios para o desenvolvimento das colônias do Tubastrea", avisa Joel Creed.
O equilíbrio desses ecossistemas está em risco e as conseqüências podem ser ainda mais graves se medidas eficazes de controle e de erradicação não forem tomadas. O aviso está dado. Os invasores chegaram. E agora?

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